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20.7.08

Organização Mundial da Saúde denuncia a Internet como farmácia minada de perigos

Medicamentos roubados, falsificados, vencidos ou vendidos sem receita médica giram bilhões de dólares neste mercado virtual global

Diego Cevallos
Da agência Terramérica

A comercialização de remédios na Internet cresce ao amparo de preços baixos, falta de receita médica e suposta garantia de anonimato.
Entretanto, os medicamentos comprados podem estar adulterados, ser roubados ou contrabandeados ou simplesmente estar vencidos e, no pior dos casos, ter compostos perigosos e até mortais.
A denúncia é da Organização Mundial da Saúde (OMS), acrescentando que 10% dos remédios vendidos na web são falsos, embora em alguns países essa proporção chegue a 25%; metade dos sites que fazem a comercialização criminosa esconde o endereço físico.

Estudo, publicado em junho último pela Aliança Européia para o Acesso a Medicamentos Seguros, afirma que 62% dos remédios vendidos online são falsos ou não cumprem normas mínimas de salubridade, incluindo os destinados a tratar graves doenças cardiovasculares, respiratórias, neurológicas e psíquicas.

Das farmácias virtuais estudadas, 95% operam de forma ilegal e 94% dos sites não têm farmacêutico identificado; mais de 90% deles fornecem, sem prescrição, medicamentos que só podem ser vendidos com orientação médica.

Com a comercialização de produtos falsos, os laboratórios perdem entre US$ 700 milhões e US$ 900 milhões ao ano. Além disso, ocorrem roubos periódicos de carregamentos de cargas de medicamentos, e, anualmente, 40% dos remédios que perdem a validade vão para o lixo, mercados ilegais ou a Internet.
Governo e organizações não-governamentais alertam para os perigos da venda virtual de medicamentos, mas não estão definidas medidas globais contra este negócio, embora existam esforços isolados.

No México, que tem o maior mercado farmacêutico da América Latina e o nono do mundo, com venda anual de US$ 9 bilhões, é o primeiro país latino-americano a abordar o problema com mais seriedade, apesar de autoridades, empresários e ativistas ouvidos pelo Terramérica reconhecerem que é muito complicado acabar com esse tipo de comércio.
Neste ano, as autoridades sanitárias mexicanas apresentarão novos sistemas de monitoramento e vigilância na Internet.
“Haverá novo enfoque para esta realidade”, disse ao Terramérica o assessor da Comissão Federal para a Proteção contra Riscos Sanitários (Cofepris), Luis Hernández. Esse órgão, encarregado de velar pela segurança dos medicamentos, está em intenso processo de readaptação no sentido de vigiar quais produtos médicos são vendidos pela rede mundial de computadores, disse Hernández.
A Cofepris vai propor lei geral de saúde, para substituir a atual, redigida em 1984 e sucessivamente reformada.

“A globalização trouxe novo enfoque das práticas comerciais, por isso é necessária uma legislação com visão atual”, afirmou Hernández.
Milhares de sites, alguns operando a partir do México, oferecem todo tipo de medicamentos para melhorar o desempenho sexual, antidepressivos e produtos para emagrecer e combater o colesterol.
“O México não tem agora nenhuma regulamentação para venda de remédios pela Internet, mas a melhor forma é apelar para a consciência do consumidor com campanhas e fazer páginas na própria Internet que informem sobre os riscos de comprar”, disse ao Terramérica Héctor Bolaños, presidente da Associação de Fabricantes de Medicamentos de Livre Acesso (que não requerem receita médica). “Encontramos remédios adulterados ou que não contêm os ingredientes da fórmula original e outros com menor quantidade ou, ainda, com substâncias tóxicas”, acrescentou.
Para Alejandro Calvillo, presidente do não-governamental O Poder do Consumidor, muitas empresas farmacêuticas que operam no México patrocinam sites de venda pela Internet e, embora se queixem de que alguns vendam produtos piratas e adulterados, no final, “para eles é parte do negócio, é a forma de posicionar suas marcas”.
A OMS desestimula a publicidade de remédios, mas, neste país, são divulgados de forma aberta e com propaganda que até cria doenças para, assim, vender mais e mais, disse Calvillo.
No México, que tem 104 milhões de habitantes, com 70% de sua população automedicando-se, funcionam 224 laboratórios que pertencem a 200 empresas, 46 delas corporações de capitais majoritariamente estrangeiros.
Os remédios são vendidos nos supermercados e em aproximadamente 23 mil farmácias.
O México é um bom mercado para o setor, por seu perfil populacional: os maiores de 65 anos representam 4% da população. Até 2025, serão 15%, e a expectativa de vida aumentará para 81,6 anos para as mulheres e 76,8 anos para os homens.
As corporações farmacêuticas sabem que, quanto maior a idade maior é a demanda por serviços de saúde e remédios.

“Sei que por vergonha muitos adultos animam-se a comprar Viagra (contra a disfunção erétil) pela Internet, e contra isso é difícil lutar, mas é preciso alertá-los que podem estar em perigo”, disse Bolaños.

Segundo o Center for Medicine in the Public Interest (Centro para a Medicina de Interesse Público, dos Estados Unidos), em 2010 o valor mundial das vendas de remédios falsificados chegará a US$ 75 bilhões, o que representará aumento superior a 90% em relação a 2005.

“A Internet, onde os sites aparecem num dia e desaparecem no outro, é excelente lugar para vender remédio adulterado. Os consumidores devem ser informados disto porque está em jogo sua saúde, e as autoridades devem vigiar ao máximo essa atividade”, afirmou Bolaños.